Leggendo gli italiani – História do novo sobrenome

“Se nada podia nos salvar, nem o dinheiro, nem um corpo masculino, nem os estudos, tanto melhor destruir tudo de uma vez.”

Seguindo na minha leitura intensa da Tetralogia Napolitana, de Elena Ferrante, chegamos ao segundo volume: História do novo sobrenome.

A obra se inicia logo após os acontecimentos finais de A amiga genial e acompanha o intenso fim da adolescência e início da vida adulta de Lina e Lenu.

E esse fim da infância implica, também, no fim das fantasias e na descoberta das rachaduras da “vida mentirosa dos adultos(este outro livro nada tem a ver com a série debatida aqui, só achei que essa expressão cabe muito bem para definir esta fase da narrativa).

 

Atenção! Pode conter spoilers de A amiga genial!

“E ainda hoje penso que muito do prazer daqueles dias tenha derivado justamente da anulação da sua, da nossa condição de vida, daquela capacidade que tínhamos de nos elevarmos acima de nós mesmas, de nos isolarmos na pura e simples realização daquela espécie de síntese visual.”

Em A amiga genial, somos apresentados a um microcosmos de Nápoles pelo ponto de vista de uma Lenu mais velha, que olha com assombro para sua infância e para o elenco diverso que habitava o seu bairro. Entre descobertas e ensinamentos, sua única constante é Lila, uma menina de personalidade forte e hipnótica, que aos poucos se torna o seu principal foco de referência.

Contudo, depois do casamento precoce de Lila com Stefano, Lenu acaba voltando-se de vez para os estudos, o seu refúgio e, ao mesmo tempo, a única coisa na qual acredita ter superado a sua amiga. Porém, aos poucos a jovem é arrastada novamente para os dramas de Lila, que vê, ainda na sua festa de casamento, o sonho de sua união com Stefano ruir.

“Lila, Lila: queria exceder e, com seus excessos, impor sofrimento a todos nós.”

História do novo sobrenome é um livro de certa forma mais lento do que A amiga genial – e mais pesado também. Se no primeiro volume as duas crianças tinham medo de vilões caricatos e assassinatos misteriosos, neste segundo capítulo as jovens devem lidar com a sombra delas mesmas – e daqueles em quem mais confiavam.

Apesar de insegura e incerta de seu destino, a nossa narradora não deixa de exibir a violência presente em sua história, manifestada de diversas formas: seja na violência doméstica, no abuso, ou mesmo na violência da influência, das portas fechadas, dos sussurros. Aqui, Ferrante apresenta uma vertente mais “crua” de seus personagens e não “passa pano” para ninguém.

“(…) as frases, gritadas assim na garganta, no peito, mas sem explodir no ar, são como estilhaços de ferro cortante a lhe ferir os pulmões e a faringe.”

Já o leitor vive uma verdadeira montanha-russa de emoções: em alguns momentos me vi torcendo pelo sucesso de um personagem; em outro, odiando-o fervorosamente; no seguinte, maldizendo um outro personagem que achava ser “o mais decente” até então; e, por fim, brigando mentalmente com Lila e Lenu, por serem tão obtusas e autocentradas.

Uma coisa é fato: não tem como ficarmos indiferente aos acontecimentos que assolam a vida desses personagens e essa é a melhor parte da literatura: nos inserimos tão profundamente em uma história, que nos sentimos como se fizéssemos parte daquela comunidade e nos preocupamos com seus atores como se fossem velhos conhecidos nossos.

“Foi um momento terrível, experimentei o horror e o prazer de me perder, o assombro e o orgulho do descarrilamento.”

Por fim, quero ressaltar o brilhantismo da narrativa em si: ao criar uma narradora que também é uma escritora, Ferrante brinca com pontos de vista e interpretações subjetivas, que nos leva a desconfiar o tempo todo sobre o verdadeiro peso de cada acontecimento – aquilo se deu exatamente daquela forma ou foi como Lenu o interpretou?

“Palavras: com elas se faz e se desfaz como se quer.”

A verdade é que estou cada vez mais arrebatada pela escrita dessa admirável escritora italiana e mal posso esperar para seguir na leitura de suas páginas! Que venha História de quem foge e de quem fica!

Ficha Técnica:

Título: História do novo sobrenome

Autor: Elena Ferrante

Editora: Biblioteca azul

Páginas: 383

País: Itália

Avaliação: 4/5 estrelas

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