Entre páginas – Eternidade por um fio

“Em sua opinião, homens de qualquer país eram capazes de uma crueldade desenfreada, sobretudo quando amedrontados.”

100 anos, 2.870 páginas e uma trilogia inesquecível.

Depois de me aventurar pelo início do século XX em meio às trincheiras da Primeira Guerra Mundial, com Queda de gigantes, e me comover com a Segunda Guerra em Inverno do mundo, é chegada a hora de Eternidade por um fio, o terceiro livro da série O Século do talentoso Ken Follett.

E este é, de longe, o livro mais robusto da série, seja em quantidade de páginas, seja em temas abordados. Por mais que os volumes anteriores tenham tocado em temáticas paralelas à Primeira e à Segunda Guerra, estes eram, sem dúvida, o foco principal de suas narrativas. Contudo, Eternidade por um fio tem a missão de fôlego de nos conduzir “sozinho” por quase metade do século, cobrindo o período desde 1961 até 2008. E muita, mas muita conta coisa aconteceu nessas décadas!

O fio condutor ainda é o mesmo: as cinco famílias que acompanhamos desde o início do primeiro volume, aqui já em sua terceira geração.

A família Franck acabou por ficar no lado oriental de uma Alemanha pós-guerra, sob o domínio de ferro dos soviéticos. Por meio de seu núcleo podemos perceber a situação dos alemães depois do conflito – não só a sua desolação moral e emocional, mas também a situação crítica de sua economia –, nos assombramos com eles diante da construção do Muro de Berlim e ficamos com o coração na mão quando alguns de seus integrantes tentam fazer a travessia para o outro lado. Confesso que esse tema sempre chamou muito a minha atenção pela situação inusitada (e, digamos, bizarra) e a abordagem encantadora e hipnótica de Follett sobre o assunto foi uma experiência incrível!

“— Mas então o que vamos fazer em relação à crise de Berlim?
— Nós vamos construir um muro.”

O núcleo norte-americano também é bastante intenso! Pelos olhos de George Jakes e Cam Dewar, acompanhamos as jogadas políticas de John Kennedy; os impactos da Guerra Fria na política americana (incluindo toda uma passagem sobre a questão dos mísseis em Cuba); a efervescência da luta dos negros por seus direitos, guiada por Martin Luther King; a guerra do Vietnã; e até mesmo os desdobramentos das mortes de John e Bobby Kennedy. Ao nos colocar dentro da Casa Branca, o autor faz com que nos sintamos quase como testemunhas oculares desses momentos e torcemos com os personagens para que tudo se resolva da melhor forma possível (mesmo que a gente já conheça os eventos históricos).

“O mundo era mesmo um tabuleiro de xadrez para as duas superpotências.”

Já do lado russo, seguimos com a família Dvorkin-Peshkov – especialmente com os irmãos Tanya e Dimka – pelos tempos “áureos” (?) da União Soviética. Enquanto Dimka trabalha no gabinete de Kruschev e participa das reuniões da cúpula da URSS, Tanya é enviada a Cuba para cobrir o conflito local e a ameaça norte-americana no país. Com ela, também visitamos os campos de trabalho forçado na Sibéria e acompanhamos a sua missão de levar o manuscrito de seu amigo Vasili ao ocidente (o que lembra, inclusive, a história da publicação do livro Doutor Jivago, de Boris Pasternak). É também com os irmãos que testemunhamos a transição de regime pós-Gorbatchev e, consequentemente, a dissolução do bloco soviético. Ufa!

“Meu Deus, é a Cortina de Ferro que está sendo derrubada.”

Por fim, mas não menos importante, também temos o nosso (querido) núcleo inglês, com destaque para Dave e Evie Williams – ambos artistas de primeira! Enquanto Evie se torna uma atriz de sucesso, Dave conquista legiões com uma banda de rock de sucesso “à la The Beatles” – e nos dá um insight ao estouro do rock and roll e da vida conturbada nos bastidores do mundo da música. Uma das minhas cenas preferidas do livro é, inclusive, protagonizada por Dave, Walli e os demais integrantes do Plum Nellie ao lado do Muro de Berlim. :’)

Chegar ao fim dessa série é, sem dúvida, um marco. Não só por ter enfrentado quase 3.000 páginas ou por ter viajado no tempo e na História por momentos que transformaram a realidade do mundo – e continuam ecoando até os dias de hoje –, mas por testemunhar a habilidade e a genialidade de um autor que, com perícia e muito talento, soube criar uma saga épica nos transformou em testemunhas de nossa própria História.

Agradeço mais uma vez ao Carlos, do canal Livros e e-books, que promoveu a leitura coletiva desta série e me inspirou a finalmente dar uma chance para a pena de Ken Follett. Que venham mais leituras inesquecíveis!

 

Ficha Técnica:

Livro: Eternidade por um fio

Autor: Ken Follett

Editora: Arqueiro

Páginas: 1.072 páginas

País: País de Gales

Nota: 4/5 estrelas

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